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31/07/19 - 19h56 - atualizada em 31/07/19 às 23h42

Morte de Ivanilda Kanarski completa 1 ano

Psicólogas e delegado falaram sobre as formas de prevenir violência contra as mulheres durante participação em programa da Super Najuá

Da Redação

Psicólogas Rafaela Maria Ferencz e Daniele Pires Soares, cunhada de Ivanilda, Franciele Santos, e delegado Paulo César Eugênio Ribeiro falaram sobre formas de combater a violência contra a mulher no programa "Espaço Cidadão" da Super Najuá

O assassinato de Ivanilda Kanarski, à plena luz do dia e diante dos filhos, no Parque Aquático de Irati, completou um ano no dia 26 de julho. A frieza do crime chocou a cidade. A cunhada da vítima, Franciele Santos, em participação no programa “Espaço Cidadão” da Super Najuá, voltou a falar sobre o sentimento da família, agora que se passou um ano do falecimento da jovem. “A saudade e a indignação de não a ter mais conosco aumentam cada dia mais. Conseguimos seguir com fé e esperança porque precisamos levar a vida adiante. Temos as crianças [filhos de Ivanilda] conosco e é por elas que lutamos hoje, para que sejam felizes”, diz.

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No dia 7 de agosto, a Lei Maria da Penha (lei federal 11.340/2006) completa 13 anos em vigor. Há pouco mais de quatro anos, a lei 13.104/2015 alterou o artigo 121 do Código Penal a fim de prever o feminicídio como circunstância qualificadora do crime de homicídio. A mesma lei alterou o artigo 1º da lei 8.072, de 25 de julho de 1990, e incluiu o feminicídio na lista de crimes hediondos.

A psicóloga Daniele Pires Soares, ao mencionar os estágios do luto – negação, raiva, negociação, depressão e aceitação – aponta que o caminho para lidar com essa perda é, de fato, seguir em frente. Entretanto, demonstrou preocupação com traumas que possam ser desenvolvidos pelas crianças, não apenas pela perda precoce da mãe, como também pelo fato de terem testemunhado o crime, que tem o próprio pai como acusado.

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“A saudade vai ficar para todos os familiares, mas a relação dos filhos me preocupa muito e dói muito a perda deles, porque eles presenciaram a cena. É um trauma gigante e são situações que ninguém precisa passar”, opina.

Daniele acredita que a mulher deve estar atenta aos sinais de violência, que podem ser sutis, a princípio, mas que podem desencadear situações mais drásticas, como a agressão física e a morte. Na visão da psicóloga, a mulher deve romper vínculos com o parceiro ao menor sinal de assédio moral, menosprezo ou gaslighting – que corresponde a um abuso psicológico que distorce informações, de modo que a vítima tenha suas crenças e opiniões constantemente questionadas e o abusador faz a vítima duvidar de sua própria memória, percepção e sanidade; quando o homem começa a insistir que a mulher está “louca”.

A psicóloga Rafaela Maria Ferencz, que já atuou tanto no Centro de Referência em Assistência Social (CRAS) quanto no Centro de Referência Especializado em Assistência Social (CREAS), lamenta que a violência contra a mulher tenha se tornado um elemento do cotidiano e aponta que, ainda que vivamos em uma sociedade violenta, existe uma parcela da população mais vulnerável: crianças, adolescentes e mulheres.

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“Atendemos várias crianças filhas de vítimas de feminicídio e essa é a parte mais triste de tudo. Como uma criança ou adolescente encara o fato de seu pai matar sua mãe? É muito doloroso e triste. Já atendi a várias crianças e adolescentes nessa situação e é muito difícil elaborar isso. Quando é uma morte trágica, como um acidente, uma doença, é uma fatalidade. Mas quando é uma violência tão brutal, é muito mais difícil de superar, pois uma das pessoas de referência da criança [o pai] acaba matando a mãe. Querendo ou não, as crianças são muito mais ligadas à mãe. Apesar de os homens estarem assumindo mais seus papéis como pais, as mulheres ainda são muito mais presentes na educação, dando atenção e estando presentes no convívio, todos os dias”, pontua.

O delegado Paulo César Eugênio Ribeiro, titular da 41ª Delegacia Regional de Polícia Civil de Irati, destaca que houve crescimento no número de medidas protetivas concedidas a mulheres do ano passado para cá. Vale lembrar que, em maio, o presidente Jair Bolsonaro sancionou a lei 13.827, que autoriza medidas protetivas de urgência. “O levantamento que fizemos indica que 162 medidas protetivas foram solicitadas na Delegacia, de janeiro até agora. No ano passado inteiro, esse número não chegou a 80”, compara.

Na opinião do delegado, esse crescimento, entretanto, pode ter a ver com o trabalho de conscientização feito perante as mulheres, que passaram a denunciar mais os casos de violência. “Isso tem gerado mais prisões, que decorrem desse descumprimento. No ano passado inteiro, tivemos apenas seis casos de descumprimento de medida protetiva. Neste ano, até a semana passada, foram oito casos. Está surtindo efeito esse trabalho de conscientização da mulher”, diz.

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Ribeiro ressalta que a instalação de uma Delegacia da Mulher no município contribuiria muito para a redução dos índices de violência. “Isso é estatístico: em toda cidade que tem uma Delegacia da Mulher, os números diminuem, principalmente de violência doméstica e de lesão corporal”, afirma. “Pleiteamos a Delegacia da Mulher, mas além dela, precisa vir todo um equipamento. Não adianta ter só um prédio e não ter gente para trabalhar, precisa ter um pessoal especializado para trabalhar na Delegacia da Mulher. A luta tem que ser pela construção da Delegacia da Mulher e pela vinda de pessoas com capacidade para atuar no caso”, analisa.

Como identificar uma potencial vítima?

Rafaela explica que um dos sinais externos que podem ajudar terceiros a identificar que uma mulher vem sofrendo alguma forma de violência doméstica é uma tendência ao isolamento. Esse afastamento do convívio social pode ser um indício de uma tentativa de mascarar hematomas e escoriações resultantes das agressões.

“Ou elas se isolam por causa da autoestima, que vai caindo e a mulher vai se trancando, ficando mais depressiva. Se ela tiver hematomas, as pessoas começam a questionar e ela inventa desculpas”, diz. Daniele complementa que, nessas situações, deve-se buscar reintegrar a mulher ao convívio, seja no trabalho, com o restante da família, na vizinhança, e se aproximar dela para que ela não tenha que lidar com essa violência sozinha, de maneira silenciosa.

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Muito se tem falado sobre o tópico “relacionamento abusivo” ultimamente. Rafaela observa que há muitas pessoas que falam que a mulher não sai da situação de violência “porque não quer”. “Mas a violência contra a mulher não começa direto nos socos e pontapés”, acrescenta. A violência doméstica está inserida num ciclo gradativo, que vai escalonando desde uma agressão verbal, passando pela privação de alguma liberdade (o homem querer determinar quando a mulher vai sair ou que roupa vestir, por exemplo), até a agressão física.

A psicóloga também alerta que esse ciclo gradativo acaba se intercalando com períodos de “lua de mel”, que o parceiro pede desculpas e o casal se acerta durante um intervalo. “Passa um tempo, vem um conflito novo e ele bate mais forte. Aí a mulher está triste, ele vai lá, pede desculpas e se reconcilia. Cada vez que esse ciclo se repete, a violência aumenta”, adverte.

Além da questão afetiva, em muitos dos casos, o vínculo econômico acaba impedindo a vítima de se afastar de seu agressor, pois depende financeiramente dele para manter a si e para sustentar os filhos. “Por isso, a importância das políticas públicas estarem olhando essas demandas, para que consigamos dar suporte a essas mulheres. Em Irati, temos a Casa de Apoio à Mulher. Quando temos uma mulher vítima de violência que não tem para onde ir e que o marido se nega a sair da casa, se nega a cumprir [as medidas protetivas], numa situação emergencial, a mulher vai para essa casa de apoio junto de seus filhos, pelo tempo que ela precisa para se reestruturar”, diz.

Denuncie

A Delegacia de Irati criou mais uma ferramenta para acolher denúncias de violência praticada contra a mulher. De forma sigilosa, as denúncias podem ser encaminhadas pelo Whatsapp (42) 99800-3480.

Confira o áudio da reportagem


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