Esportes Futebol

24/07/19 - 21h23 - atualizada em 24/07/19 às 21h38

Menina de 9 anos se destaca jogando futebol e futsal ao lado de garotos

Isadora Alves dos Santos Matte Dossena atua como zagueira e goleira num time composto preponderantemente por garotos

Edilson Kernicki, com reportagem de Rodrigo Zub. Fotos: Escola Furacão de Rio Azul e Iratiense

Já não é mais novidade que as mulheres e as meninas têm bom desempenho em esportes que, antes, eram considerados masculinos, a exemplo do futebol e do futsal. Tanto é que Marta se tornou a maior artilheira de Copas do Mundo neste ano ao marcar seu 17º gol na competição e superar a marca do jogador alemão Miroslav Klose, que detinha o recorde com 16 gols.

Entretanto, a atleta Isadora Alves dos Santos Matte Dossena, de nove anos, que atua como zagueira e goleira, se destaca por um diferencial: ela joga num time de meninos, em que ela é a única menina. Ela treina atualmente na Escolinha Furacão, em Rio Azul, e no Iratiense.

Ouça a reportagem completa no fim do texto

Segundo o pai de Isadora, o advogado Fabrizzio Matte Dossena, a garota começou a jogar futebol aos seis anos, como goleira. Aos sete anos, na categoria Sub-9, os professores Marco Antonio e William Korevar perceberam que Isadora tinha condições de disputar o Campeonato Regional.

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“No Regional, nunca tivemos quaisquer problemas, sempre foi aceito, pois já havia uma menina de Rebouças, que já jogava. No ano passado, ela começou a atuar em Rio Azul, em algumas competições, no Sub-9, enquanto tinha oito anos, o professor [Luiz Fernando] Bonotto a levou para a Copa Furacão, onde também o Athletico, sem nenhum tipo de restrição, deixou que ela jogasse”, comentou.

Somente neste ano que surgiram empecilhos à sua participação num campeonato pelo Iratiense, por ser uma menina jogando num time de meninos. “Foi levantada a possibilidade dela jogar a Liga Sul-Norte e foi uma cidade só que deu parecer contrário. Ela acabou não disputando e nem mesmo o Iratiense jogou essa Liga, porque até então era a única goleira que tínhamos no Sub-9”, relembra o pai.

Em seguida, Isadora jogou a Taça Paraná Sub-13, na categoria feminina. Dessa vez, a restrição era a idade, pois ela nasceu em 2010 e a categoria admitia apenas atletas nascidas até 2009. “Fizemos um pedido à Federação, que a autorizou, desde que eu e minha mulher assinássemos um documento dizendo que ela tinha condições de jogar. Ela jogou duas partidas nessa competição, que ela disputa pela Gestão Esportiva VG, de Curitiba, que representa a Escola Cancun, que é a mesma Escola do Athletico. Ainda em Curitiba, ela disputa o campeonato pela Escola Cancun, no masculino, mas também não tivemos problemas”, diz Fabrizzio. Em Curitiba, Isadora treina com a professora Victoria Gomes.

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A vitória mais recente de Isadora foi diante do Novo Futsal Paraná (NFP), uma espécie de concorrente da Federação Paranaense de Futebol de Salão (FPFS). A NFP autorizou que, até a categoria Sub-11, meninas possam jogar junto aos meninos. O Iratiense vai disputar o Campeonato Metropolitano e Isadora será a goleira. “No Regional, ela joga com o Sub-11, que é uma categoria acima da dela, pois ela só tem nove anos ainda. O Sub-9 joga apenas Festivais e ainda não disputamos nenhum Festival, que lá ela vai jogar no gol. Aqui no Sub-11, como zagueira e lateral, ela disputa uma categoria acima. Só ela e um menino de Rio Azul, o Victor, que fazem isso de disputar uma categoria além. Ela, fisicamente, aguenta o tranco”, diz.

Segundo Fabrizzio, Isadora passou a jogar com meninos pela falta de times femininos correspondentes à idade dela. Recentemente, ela foi convidada para jogar uma partida Copa Zanoni, num time feminino Sub-15 de Mallet, por não haver times com outras meninas da mesma idade.

O pai de Isadora diz que a grande dificuldade de meninas jogarem com meninos ainda é o preconceito. “Eu cheguei a ouvir de alguém, um professor que fez isso, eu mandei uma mensagem no privado para ele. Ele falou e se o menino perder para a menina, o que eu vou falar? Fala que perdeu, não que perdeu para uma menina. Até teve uma história aí que teve um jogo que a Isadora acabou dando uma entrada no menino que tirou ele do jogo. Ele joga de igual para igual com todo mundo. Para ela não tem essa história de menino ou menina. Então o preconceito vem de cada um de nós. Porque a Isadora joga futebol, ela canta e faz um monte de atividades lúdicas que são diferenciadas”, revela Fabrizzio.

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O professor Luiz Fernando Bonotto, responsável pela Escola Furacão, afirma que Isadora tem o mesmo rendimento dos meninos em campo e que nunca precisou dispensar a ela um tratamento diferenciado. “Ela consegue acompanhar os treinamentos de igual para igual, tanto na parte tática quanto técnica. Começamos a trabalhar com ela no ano passado, quando a convidamos para participar de uma Copa que teve em São Mateus. Ela foi para ser nossa goleira reserva e acabou que nossa equipe foi bastante desfalcada para lá e ela teve que jogar na linha. Deu conta do recado, jogou e nos ajudou bastante e acabamos sendo campeões naquela competição. Desde então, ela passou a participar conosco de alguns treinamentos, entrou conosco na equipe do iratiense e está até hoje treinando conosco. Foi bem tranquila a inclusão de uma menina no meio dos meninos”, afirma.

Bonotto considera Isadora uma atleta polivalente, tendo em vista que ela joga tanto futebol quanto futsal e é capaz de atuar tanto no gol, quanto na linha, em várias posições. O treinador frisa que, em campo, Isadora não sofre nenhum tipo de preconceito dos demais jogadores sejam companheiros de time ou adversários. “Os meninos não aliviam. Quando é jogo, todo mundo quer ganhar. E não tem por que, pois ela consegue acompanhar e dá conta do recado e se sobressai nas partidas”, complementa. Na linha, Isadora joga como volante e zagueira. Já no futsal, atua apenas como goleira. A rotina de treinos se divide entre Irati e Rio Azul, de segunda a sexta. Ocasionalmente, quando disputa algum campeonato, treina também na capital.

Isadora conta que o interesse pelo futebol veio de, primeiro, observar e, depois, jogar com os irmãos mais velhos. “Com dedicação, consigo ter uma força física mais elevada do que algumas meninas da minha idade. Às vezes, chuto mais forte que alguns, mais fraco que outros, mas é assim”, diz. Para ela, falta mais oportunidade e respeito em campo para que mais meninas passem a jogar futebol.

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Fabrizzio explica que a rotina de acompanhar os treinos da filha não é algo tão novo para a família, uma vez que o irmão do meio, Afonso, já treinava pela Escolinha Furacão. “Precisamos nos dividir muitas vezes. Mas como ela é menina e como o Afonso já tem 13 anos, acabamos acompanhando mais a ela, pois ele vai sozinho [aos treinos]”, conta.

Isadora tem o sonho de seguir carreira de jogadora profissional, mas não abre mão de estudar um curso de nível superior para poder ingressar no mercado de trabalho. “Eu quero me formar em alguma coisa para quando eu me aposentar do futebol ou não conseguir ser jogadora profissional, eu tenha um emprego para não ficar só no futebol porque se não der certo não tem outra coisa para fazer”.

OUÇA A REPORTAGEM QUE CONTA A HISTÓRIA DE ISADORA JOGANDO FUTEBOL E FUTSAL COM MENINOS


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